Retrato Falado

Entender quem é meu pai é muito mais do que descrevê-lo. É um desafio que se mistura a sentimentos, lembranças indiretas, dúvidas e lacunas. Sem conhecê-lo durante grande parte da vida, construí uma imagem a partir de relatos que, pouco a pouco, ganhou forma dentro de mim.

Em Retrato Falado, o fio vermelho constrói uma figura humana sem identidade. Os cruzamentos formam um corpo, mas também revelam sua instabilidade: a imagem é feita de sobreposições, tensões e vazios. Os cinco fios que escapam da figura representam os cinco filhos que meu pai deixou no mundo. Um deles parte do peito e avança até o vidro, aproximando-se do espectador. Esse fio me representa: continuo ligado a essa história, mas busco outro lugar para olhar para ela.

A folha natural introduz outra dimensão nesse emaranhado. Ela traz para a obra algo material, concreto, que existe para além da imagem que construí. Minha relação com a espiritualidade se tornou cada vez mais presente ao longo do processo de redescoberta da figura paterna. De certa forma, essa presença se fez mais concreta para mim do que a do próprio pai. A folha é matéria, natureza e também oferenda. Não representa uma cura concluída, mas acompanha um processo de ressignificação: a tentativa de dar forma ao que permaneceu abstrato e olhar para essa história de outra perspectiva.

Disforme, te fiz de sombra
Te vesti de perguntas sem ímpeto
Teci respostas
Sem rosto, sem voz, sem cor.

Eu te criei como um filho.

Sem o amor da mãe que rasga o ventre
Te forjei do vazio do inferno inverno
Da lágrima que não cai
Entre o nada e o nada.

Não te fiz humano
Porque você não é.
Assim você escolheu
Não ser você
E eu não ser eu.

 

Arte com linha:

Entrelaçamento manual de fios têxteis, fixados por pregos metálicos sobre suporte rígido.

Texto e arte: Eduardo Vieira