Livro – Submersa
Submersa (pdf)
Sinopse por Helena Rios

Eduardo Vieira conta que, quando criança, gostava de fechar os olhos e imaginar-se sendo outro. Para isso, projetava-se em uma pessoa qualquer, próxima ou desconhecida. O exercício era aproximar-se das sensações, era estar dentro de um novo corpo para, de lá, re-sentir o mundo. Gosto muito da ideia de apropriação contida nessa prática. Ela possibilita que a percepção sobre a humanidade se expanda, que o próprio ser se expanda. Um bonito treino de altruísmo.
Mesmo que Eduardo já experienciasse outras ferramentas de expressão – como a música e o teatro -, parece ter encontrado na fotografia um potente meio de vivenciar e exteriorizar sua prática infantil. “Submersa” é um desses exercícios. Aqui, neste livro, ele se permite entrar nas questões emocionais e existenciais de sua companheira, Ana, talvez para compartilhar com ela a experiência, talvez para compreendê-la, ou talvez para que ela, refletida pelas lentes do companheiro, possa enxergar a força e a beleza de seu próprio processo.

As imagens que formam esse ensaio são registros da vida cotidiana do casal. Imagino que a atividade de fazer notas do dia-a-dia – tendo a fotografia como ferramenta – está provavelmente associada à formação de Eduardo como jornalista. A edição do livro, porém, configura-se como um conto com narrador em terceira pessoa, o que nos aproxima dos textos literários e nos distancia da escrita objetiva mais característica do jornalismo. Somos conduzidos pela história da Ana, que é ao mesmo tempo personagem imaginada por Eduardo e sua musa inspiradora. Vemos, por meio das imagens, o processo de investigação interna da protagonista, que imerge em suas próprias sombras, regenera-se, volta à superficie e parece preparar-se para um novo mergulho.

Água é lar, retorno, casa de mãe. Odoyá.
Orar à maré a ressaca da terra. Reequilíbrio da própria ausência.
Da margem do precipício nos dias famintos.
À beira da água, areia salgada, submersa e abraçada.
Eduardo Vieira